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Eustresse: quando a pressão impulsiona — e quando começa a cobrar um preço

  • há 11 horas
  • 6 min de leitura
Nem todo estresse é inimigo.

A palavra “estresse” costuma aparecer ligada a cansaço, ansiedade, excesso de trabalho ou adoecimento. Mas, na origem dos estudos sobre o tema, o estresse foi entendido como uma resposta de adaptação do organismo diante de uma demanda. Ou seja: antes de ser bom ou ruim, o estresse é uma reação.

O termo eustresse é associado ao endocrinologista Hans Selye, um dos principais nomes da pesquisa sobre estresse. Ele diferenciou o distress, ligado ao estresse nocivo, do eustress, uma forma positiva de ativação diante de desafios. O prefixo “eu” vem do grego e carrega a ideia de “bom” ou “benéfico”. A American Psychological Association define eustresse como uma resposta positiva ao estresse, associada a realização, crescimento e bem-estar.


Em outras palavras: o estresse nem sempre paralisa. Às vezes, ele mobiliza.

Uma apresentação importante, uma negociação difícil, uma entrega estratégica ou uma mudança de rota podem gerar tensão, atenção e energia. O corpo reage. O cérebro prioriza. A pessoa se prepara para agir. Quando essa pressão vem acompanhada de clareza, apoio, recursos e algum grau de controle, ela pode funcionar como desafio — não como ameaça.


Esse é o território do eustresse.


O problema começa quando a empresa confunde esse movimento saudável com exaustão silenciosa.

Existe uma diferença importante entre sair de uma reunião energizado porque o desafio parece possível e sair em alerta porque nada está claro, o prazo é irreal, a liderança não apoia e o erro virou ameaça. Por fora, os dois cenários podem parecer parecidos: agendas cheias, entregas urgentes, cobrança por resultado. Por dentro, são experiências completamente diferentes.

O eustresse costuma aparecer quando a pressão tem contorno. Há desafio, mas também direção. Há expectativa, mas também autonomia. Há responsabilidade, mas também apoio. A pessoa precisa se esforçar, mas não se sente abandonada.

Já o distress aparece quando a exigência ultrapassa, de forma persistente, os recursos disponíveis para lidar com ela. O modelo clássico de Richard Lazarus e Susan Folkman ajuda a explicar essa diferença: uma situação não produz a mesma resposta em todas as pessoas, porque cada pessoa avalia o que está em jogo e quais recursos existem para enfrentar aquilo. Uma mesma demanda pode ser percebida como desafio, ameaça ou dano, dependendo do contexto.

É aqui que o tema fica especialmente importante para as empresas.

Porque, no trabalho, o problema raramente está apenas na existência de pressão. O problema está na combinação entre pressão, recursos e tempo de exposição. Uma meta ambiciosa pode gerar foco e energia quando a equipe entende o objetivo, tem autonomia, recebe apoio e consegue se recuperar depois de ciclos intensos. A mesma meta pode virar sofrimento quando vem acompanhada de ambiguidade, medo, excesso de cobrança, conflitos, liderança ausente e sensação de impotência.

O cérebro ajuda a explicar essa virada.

Quando a pessoa percebe uma situação como desafiadora, mas possível, o corpo ativa sistemas de atenção, energia e prontidão. Em níveis moderados e por tempo limitado, essa ativação pode favorecer foco e desempenho. É por isso que algumas situações exigentes também podem gerar entusiasmo, presença e senso de conquista.

Mas o cérebro não foi feito para viver em estado de alerta permanente.

Quando a pressão é intensa, crônica ou percebida como incontrolável, a resposta muda. A pessoa pode ficar mais reativa, menos criativa, menos disponível para escutar e com mais dificuldade de tomar boas decisões. Sob pressão saudável, há foco. Sob pressão excessiva, há defesa.


Essa diferença é crucial.


No eustresse, a ativação organiza a ação.

No distress, ela começa a consumir a pessoa.

Por isso, o eustresse não pode ser usado como desculpa para romantizar sobrecarga.

Existe uma diferença entre desafio e ameaça. Entre energia e exaustão. Entre intensidade e abuso. Entre engajamento e medo de falhar.

A neurociência reforça algo que muitas organizações ainda resistem em aceitar: o estresse não é apenas uma sensação subjetiva. Ele envolve corpo, cérebro, atenção, memória, emoção e comportamento. Bruce McEwen, referência nos estudos sobre alostase e carga alostática, mostrou que os sistemas de adaptação do organismo são essenciais, mas podem gerar desgaste quando ativados repetidamente ou por tempo prolongado.

Essa ideia é muito importante para o mundo do trabalho.

Como as pessoas conseguem sustentar um ritmo intenso por algum tempo, a organização pode interpretar isso como sinal de que está tudo bem. Mas o corpo pode funcionar sob pressão antes de adoecer. A equipe pode entregar antes de colapsar. O líder pode parecer forte antes de se tornar impaciente, cínico ou emocionalmente indisponível.


O sinal nem sempre aparece como afastamento.


Às vezes aparece como silêncio.

Como perda de criatividade.

Como irritação constante.

Como reuniões em que ninguém discorda.

Como dificuldade de concentração.

Como sensação de urgência permanente.

Como líderes que já não escutam.

Como equipes que apenas executam, mas deixaram de pensar.

É nesse ponto que a conversa sobre eustresse se torna uma conversa sobre cultura.

Empresas saudáveis não eliminam todo estresse. Trabalho envolve desafio, aprendizagem, responsabilidade, conflito produtivo e adaptação. O que empresas mais maduras fazem é aprender a distinguir a pressão que desenvolve da pressão que desgasta.

E essa distinção não pode ficar apenas nas mãos do indivíduo.

Cada pessoa tem sua história, seus limites e seus recursos emocionais. Mas o ambiente importa. A liderança importa. O desenho do trabalho importa. A clareza de papéis importa. A autonomia importa. O apoio importa. A recuperação importa.

Quando há desafio com apoio, o cérebro tende a interpretar a demanda como algo enfrentável. Quando há cobrança sem recurso, sem clareza e sem segurança, a mesma demanda pode ser lida como ameaça.


Essa é a virada que muitas organizações ainda precisam fazer.


A pergunta não é apenas: “as pessoas estão estressadas?

”A pergunta mais inteligente é: “que tipo de estresse estamos produzindo?”

Há estresse que amplia presença, foco e senso de conquista.

Há estresse que rouba sono, paciência, memória e sentido.

Há estresse que prepara para a ação.

Há estresse que prende o corpo em estado de alerta.

O eustresse mora no primeiro grupo. Mas ele depende de condições.

Ele precisa de desafio real, não de caos.

Precisa de autonomia, não de abandono.

Precisa de metas claras, não de cobranças contraditórias.

Precisa de liderança presente, não apenas vigilante.

Precisa de recuperação, não de disponibilidade infinita.

Precisa de sentido, não apenas de urgência.

Quando essas condições desaparecem, a palavra “eustresse” vira apenas uma embalagem elegante para a sobrecarga.

Em tempos de alta exigência, mudanças rápidas e novas responsabilidades sobre riscos psicossociais, as empresas precisam sofisticar essa conversa. Não basta dizer que todo estresse é ruim. Também não basta dizer que pressão faz parte. As duas frases são incompletas.


O ponto é aprender a observar.


Observar se a equipe sai de um ciclo intenso mais fortalecida ou mais defensiva.

Observar se as pessoas ainda conseguem discordar.

Observar se a liderança regula a pressão ou apenas repassa ansiedade.

Observar se o desafio vem acompanhado de recursos.

Observar se existe recuperação depois da entrega.

Observar se a energia virou alerta permanente.


No fundo, o eustresse ensina algo simples, mas pouco praticado: pessoas podem crescer diante de desafios, mas não florescem em ameaça contínua.

Prevenir riscos psicossociais não significa retirar a ambição do trabalho. Significa criar condições para que a ambição não custe a saúde das pessoas.

Empresas mais conscientes não são aquelas que evitam toda pressão. São aquelas que sabem quando a pressão está impulsionando — e quando começou a cobrar um preço que ninguém deveria normalizar.


Referências

American Psychological Association. APA Dictionary of Psychology — Eustress. Definição de eustresse como resposta positiva ao estresse, associada a realização e bem-estar.https://dictionary.apa.org/eustress

Selye, H. Stress and Distress. Texto em que Hans Selye diferencia eustress e distress, associando eustresse à ideia de resposta positiva ou construtiva ao estresse.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1222562/

Jackson, M. The legacy of Hans Selye and the origins of stress research. Revisão histórica sobre Selye e a origem dos conceitos modernos de estresse, distress e eustress.https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.3109/10253890.2012.710919

Lazarus, R. S.; Folkman, S. Stress, Appraisal, and Coping. Obra clássica sobre avaliação cognitiva do estresse, recursos percebidos e estratégias de enfrentamento.https://books.google.com/books/about/Stress_Appraisal_and_Coping.html?hl=pt-BR&id=i-ySQQuUpr8C

McEwen, B. S. Stress, Adaptation, and Disease: Allostasis and Allostatic Load. Artigo fundamental sobre alostase, carga alostática e o custo fisiológico da adaptação contínua ao estresse.https://doi.org/10.1111/j.1749-6632.1998.tb09546.x

McEwen, B. S.; Gianaros, P. J. Central role of the brain in stress and adaptation. Discussão sobre o cérebro como órgão central na interpretação e resposta ao estresse.https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20201874/

Arnsten, A. F. T. Stress signalling pathways that impair prefrontal cortex structure and function. Revisão sobre como o estresse pode prejudicar funções do córtex pré-frontal, como atenção, memória de trabalho e controle executivo.https://doi.org/10.1038/nrn2648

McEwen, B. S. et al. Stress Effects on Neuronal Structure: Hippocampus, Amygdala, and Prefrontal Cortex. Revisão sobre os efeitos do estresse em regiões cerebrais envolvidas em memória, emoção e regulação cognitiva.https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4677120/

 
 
 

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